quarta-feira, 6 de abril de 2011

Voar



Pele alva, batom preto nos lábios, a saia cheia de correntes e os gritos unidos ao som singular de uma guitarra nos fones de ouvido. Nada de fotos, sorrisos ou convivência social, mas ficar sozinha com quem eu mais detestava - eu mesma - era inconcebível. Talvez por isso, eu precisava de letras carregadas de revoltas e volume ao máximo: para me desligar do mundo. Mas não era o suficiente e nunca seria o suficiente.

Volta e meia elas surgiam, insistentes, a elevar meu nível de adrenalina; aquelas perguntas irritantes: Por que estou aqui? Por que comigo? Quem sou? Por que sou? De onde vim?

Tentei me esconder em todos os refúgios que achei convenientes para aquele momento. Em nenhum deles eu encontrei respostas. E talvez eu não buscasse respostas, afinal, dúvidas sempre suscitam outras dúvidas. Eu queria apenas poder guardar aqueles pontos de interrogação em uma caixa e esquecê-la em um canto qualquer de minha memória, livrar-me de todos eles.

Eu subia ao terraço, esticava o saco de dormir no chão e ficava a namorar as estrelas. Foi quando a mais pertubadora dentre todas as minhas indagações atingiu-me a consciência: Como alguém pode criar algo como as estrelas? Afinal, tudo o que existe foi ou é criado e tudo o que é criado é criado por um criador. Será que Deus existe? E se existe, por que me deixa passar por situações tão complicadas e dolorosas?

Minha adrenalina sobe, algumas palavras soltas no ar, as lágrimas rolam. Talvez entender o sentido e o motivo de tudo não seja o mais importante, talvez aprender a lidar com o "tudo" seja o que preciso por agora. Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão, como também bem disse o sábio Salomão.

Eu, o cobertor de estrelas e minha filosofia barata, dada de graça para que eu pudesse fazer o que faz do ser humano o ser mais fantástico de toda a criação: Pensar. Nem sempre é fácil e singelo como a palavrinha com duas sílabas, duas vogais e quatro consoantes. Nem sempre é fácil pensar. Mas quem disse que a vida é fácil? E quem disse que ela deve ser difícil? E, na verdade, o que torna algo fácil? Ou o que torna algo difícil? Por que uma palavra para falar da negação de outra? Por que vivemos de antônimos, como o computador entende os comandos por binários? Por que tantos "porques" na Língua Portuguesa?

Era uma tarde de fevereiro - uma inesquecível tarde de fevereiro - quando eu redescobri o melhor refúgio para as frases interrogativas. Foi naquela tarde que percebi que para cada uma de minhas perguntas existiam respostas, mas que eu não precisava responder a todas elas. E aquela voz doce. Descobri que os "pontos de interrogação" me tiram de um estado de inércia, foram criados como um meio de conduzir-me a um outro degrau, a uma nova e mais maravilhosa forma de enchergar o mundo, as cores, a vida. E aquele abraço a me aquecer.

Tarde de fevereiro tem cheiro de "é melhor viver daquilo que não posso explicar". Excede o que sou capaz de definir, de falar, de escrever. Sentir é a forma de podermos dançar juntos neste ritmo desacelerado e centrado fora de mim. Descobri que a vida é assim, sem precisar de razões apesar de as ter, mas mesmo assim continua a ser.

Não preciso mais dos gritos no fone de ouvido, apesar de ainda gostar de ouví-los. Não preciso mais das correntes e do batom preto para dizer ao mundo que não estou bem. Alguém se importa. Alguém sempre se importou.

Mergulhei, sentei no fundo da piscina, fechei os olhos e esperei. Ficar em silêncio comigo mesma se torna um daqueles momentos que não se encontram nas prateleiras de um hipermercado.

Sei que há razão para saber, mas que talvez não saber e perder a razão é saber viver e não apenas saber, não apenas viver.

A adolescência está acabando, não sou mais a garota que não vê a hora de se tornar adulta em seus quinze anos. Naquele tempo eu não sabia e continuo sem saber: Muitos degraus para subir, muitas coisas para exceder a minha razão e muitas outras para tirar de mim aquilo que se escreve em livros. Os sentidos se esvaem de mim, como é bom aprender assim.

Sei Pai, que és muito mais. Mais que minhas palavras, mais que meus sentidos, mais que meus sentimentos, mais do que penso, mais que a minha vida. Encontro a alegria quando O sinto se aproximar de mim e dizer as coisas que só Senhor poderia dizer, abraçar-me como só o Senhor sabe abraçar e me amar com o sentimento mais inebriante e singelo que alguém poderia encontrar. Procurar as respostas para as tantas dúvidas que invadem a minha mente se tornou uma brincadeira entre eu e Você e como é bom ver que algumas só poderão ser respondidas daqui a um tempo, quando finalmente poderei olhar em Teus olhos; outras recebem frases curtas e se derretem com toda a sua falsa complexidade diante da grandeza que o Tu és. Por se importar com minhas bobeiras, por brincar com minhas brincadeiras, por trocar Suas deliciosas sílabas comigo, por me aquecer quando sinto tudo a minha volta congelar, por fazer-me alguém importante quando eu quero me afundar em minhas lágrimas, por colher e responder aos choros, por estar sempre disponível para me ouvir, por ser assim como Tu és. És a razão de tudo, o pulsar do meu coração, a minha linda estrela a brilhar, o meu maior amor.



Da una vuelta más
Solamente una vuelta.
Resgate











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